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Professor de Filosofia social e política, e especialista em ambiente, Viriato Soromenho-Marques alerta para a possibilidade da paciência dos portugueses perante os incêndios estar a esgotar-se


Texto: Revista O Instalador

Foto: José Alex Gandum

Em declarações à rádio TSF, o antigo dirigente da associação ambientalista Quercus, começou por referir ser «típico nos grandes acidentes e nas grandes tragédias que a primeira reacção das pessoas seja uma reacção aparentemente de apatia, porque no fundo as pessoas ainda estão a avaliar as perdas e o que aconteceu». Mas mais de 500 ignições num dia, «as rotas de movimentação do fogo da forma brutal como aconteceram, não poupando sequer as áreas florestais que estavam bem ordenadas, é de facto uma situação preocupante e chocante», sublinhou o também comentador.

 

«Há que distinguir duas tragédias diferentes: em 17 de Junho em Pedrógão Grande, o exemplo foi o de um Estado que funcionou mal, no caso do dia 15 de Outubro o Estado nem sequer estava lá», referiu Viriato Soromenho-Marques, que enalteceu «o papel extraordinário da comunicação social» nestes casos.

 

O especialista frisou que «há muito tempo que o Estado se retirou destas questões: o Estado gere apenas 2% da área florestal portuguesa, por isso não tem qualquer interesse em ser actor directo. Deixou o mercado funcionar, o que na floresta se traduziu num caos, e privatizou os meios de combate, desde as comunicações aos meios aéreos».

 

«O que falhou», disse, «foi um modelo com mais de 20 anos que privilegia o combate em vez da prevenção, uma responsabilidade que é partilhada por sucessivos governos».

 

O professor de Filosofia social e política sublinhou que «vai ser preciso reconquistar um país que está desertificado e despovoado, pois é preciso ter a consciência que depois de 15 de Outubro se não existir uma política estratégica de concertação nacional e de longo prazo nós vamos ter mais despovoamento».

 

O especialista esclareceu ainda que «perdemos soberania sobre o nosso território, e agora é preciso mudar o sistema de ordenamento e de combate: na minha perspectiva nós temos efectivamente de nacionalizar o combate, pois isto de termos meios aéreos contratados a empresas - sendo que algumas delas estão a ser julgadas em Espanha, por fraude - e que têm em Portugal o seu principal cliente... temos a nossa Força Aérea, que já teve experiência no combate aos incêndios florestais», reforçando que «há uma nova visão que tem de ser baseada no interesse público, falta  a difícil tarefa de fazer com que os Partidos se ponham de acordo no Parlamento em função desse interesse público».

 

Viriato Soromenho-Marques rematou que «pelo caminho em que estamos vamos continuar a ter estas tragédias e a paciência dos portugueses vai esgotar-se, sendo imprevisível prever o que irá suceder se isso vier a acontecer».


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