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Ambientalistas e um investigador alertam para os perigos do acordo comercial Europa-Canadá, ao permitir que o petróleo de areia betuminosa, mais poluente que o convencional, concorra com as energias renováveis, pondo em causa esforços contra as alterações climáticas.


«Temos a questão do Canadá produzir o petróleo vindo das areias betuminosas, altamente poluente, que poderá entrar na Europa concorrendo com a energia renovável e, depois do CETA [o acordo comercial] aprovado, não iremos conseguir dizer não» àquela forma de energia, defendeu Gil Penha Lopes, da Faculdade de Ciências de Universidade de Lisboa.

«Sem incluir as externalidades que [aquela energia] criou no seu local de origem», ou seja, sem exigir, por exemplo, que a empresa tenha de reflorestar toda a zona afectada pela sua actividade ou tratar a água que está a contaminar, o preço que chega à Europa seria inferior àquele conseguido com a utilização de energia renovável, explicou à agência Lusa o especialista.

Assim, «não vindo com esse valor associado, é uma competição desleal entre produtos que tendem a resolver o mesmo problema, mas têm impactos completamente diferentes» no ambiente, acrescentou.

O cientista falava à Lusa à margem da conferência "Energia e Alterações Climáticas", no âmbito dos debates "Olhares da Ciência sobre o acordo comercial UE/Canadá (CETA)", iniciativa da Associação Sistema Terrestre Sustentável, Zero, Plataforma Não ao Tratado Transatlântico e Plataforma Transgénicos Fora.

A Zero manifestou preocupação com a possibilidade de serem importadas areias betuminosas para a Europa.

«Com base em todos os acordos de que a UE é signatária sobre alterações climáticas e poluição do ar, não deviam ficar ao mesmo nível na directiva europeia, mas ficaram», referiu à Lusa Susana Fonseca, da associação ambientalista.

Para a Zero, «as renováveis devem ter prioridade de entrada na rede, devem ser privilegiadas em termos de investimento público e de apoios», por exemplo, relativamente a outras fontes mais poluentes, e o CETA «abre a porta a que isso seja cada vez mais difícil e possa ser contestado por outras empresas». 

A neutralidade tecnológica, que estipula que todas as tecnologias devem ser tratadas de modo igual, «está num dos artigos (do CETA) e pode dificultar políticas públicas de promoção das renováveis», explicou.

A melhoria da eficiência dos equipamentos, atendendo à economia circular, que se baseia na reutilização e reciclagem de produtos para conservar os recursos naturais, também fica dificultada, segundo Susana Fonseca, devido aos obstáculos à promoção da reparação de aparelhos eléctricos e electrónicos e a sua reutilização, por exemplo.

Questionado pela Lusa acerca da concorrência que os combustíveis fósseis, nomeadamente o petróleo das areias betuminosas, poderão fazer às energias amigas do ambiente, o presidente da Associação de Energias Renováveis (APREN), António Sá da Costa, que também participou no encontro, disse que «não é o CETA que vai aumentar ou diminuir essa concorrência, vão ser outros factores».

As energias fósseis «estão numa altura de recessão e, não é que possamos prescindir totalmente delas, mas o papel vai ser diferente» já que as renováveis são mais sustentáveis e «conseguimos fazer o mesmo com menos recursos energéticos» e agora é uma questão de «ir mais ou menos depressa», o que «vai depender não desse tipo de acordos, mas de maior consciencialização dos cidadãos», referiu António Sá da Costa.


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