Estes dados são relatados, não só pelo IPCC (The Intergovernmental Panel on Climate Change), mas também pelo relatório sobre o Estado do Clima na Europa 2024, publicado pelo Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copérnico (C3S) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), com participação de vários institutos públicos europeus. Adicionalmente, as preocupações deixaram, nos últimos anos, de ser apenas climáticas, passando também a ser de soberania energética, competitividade económica europeia e segurança. As disrupções das cadeias de valor após a pandemia, a crise energética resultante da invasão da Ucrânia e as alterações geopolíticas colocaram a Europa numa posição de fragilidade e risco, resultando num conjunto de planos e ações para acelerar a independência e garantir a criação de indústria que aumente a resiliência do mercado interno, principalmente através das energias renováveis. Simultaneamente, a digitalização e a economia de dados dominam cada vez mais o futuro, assumindo relevância na transformação económica e social, colocando pressão adicional nas necessidades energéticas e no posicionamento estratégico da Europa. Esta alteração estratégica coloca Portugal numa situação privilegiada, tornando-o automaticamente um local de interesse para a indústria da transição energética, da resiliência e dos dados, devido ao seu atual mix de eletricidade com elevada incorporação renovável e baixos preços. Esta oportunidade não surge desde a revolução industrial, quando as economias mais resilientes emergiram de uma indústria forte e de fontes energéticas competitivas. Portugal fez um percurso notável, sobretudo na década de 2000, quando soube aproveitar o crescimento do consumo aliado à incorporação renovável, permitindo a consolidação do setor eólico, a promoção da indústria, benefícios para os municípios, medidas de mitigação e a integração das centrais no território, bem como a expansão e planeamento da rede. Apesar da situação privilegiada, as condições atuais são distintas do passado. O planeamento e desenvolvimento do setor elétrico teve um interregno entre 2011 e 2018, colocando-o hoje numa situação crítica de falta de disponibilidade de rede e condicionando a evolução da estratégia económica nacional. O PNEC 2030 surge condicionado a esta realidade, mas reconhece o impacto positivo das energias renováveis e estabelece uma ambição alinhada com a capacidade de atrair investimento para o setor e para a indústria verde. Nesta lógica, e com uma visão centrada no preço da energia e na redução de custos, a política nacional excluiu a incorporação de outras externalidades anteriormente ponderadas, alocando a potência disponível de rede através de leilões e atribuição direta de pontos de ligação, colocando os projetos numa lógica de exposição direta ao mercado e maximizando o potencial de geração nos locais ainda disponíveis. Esta situação é amplamente reconhecida pelas tutelas e organismos públicos, e o PNEC 2030 foi elaborado tendo estes condicionamentos em consideração. Isto remete-nos para a localização atual dos projetos solares fotovoltaicos e para a hibridização, que hoje são injustamente atacados pela sua localização, colocando a responsabilidade total nas empresas, como se estas se impusessem às comunidades e à sustentabilidade. As empresas atuam num setor regulado e dependente de infraestrutura crítica, desenvolvendo projetos em áreas adjacentes aos pontos de ligação atribuídos pelo Estado. Equipas multidisciplinares, que incluem engenheiros, biólogos, geólogos, gestores, analistas de dados, juristas, entre outros, desenvolvem projetos dentro das condicionantes existentes, que são depois avaliados pelas entidades competentes. Os projetos passam pelo crivo de diversas entidades públicas, com responsabilidades distintas, e podem exigir pareceres de mais de 20 organismos. Cabe às empresas assegurar o diálogo com municípios e cidadãos, desenvolver planos de envolvimento 79 ASSOCIAÇÕES
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