EDIFÍCIOS INTELIGENTES | OPINIÃO 61 Num contexto regulatório em constante evolução, as decisões que são tomadas em fase de projeto assumem um impacto determinante na capacidade futura do edifício responder aos desafios da neutralidade carbónica, eficiência hídrica e energética, adaptação climática, economia circular e requisitos de sustentabilidade definidos pela União Europeia. A importância destes desafios torna- -se particularmente evidente quando olhamos para o parque edificado em Portugal. Os edifícios representam cerca de 40% das necessidades energéticas, sendo responsáveis por 36% das emissões de dióxido de carbono1, constituindo um dos setores com maior influência no cumprimento das metas nacionais e europeias de eficiência energética e descarbonização. Adicionalmente, é na fase de projeto que se podem considerar aspetos como a conformidade com a Diretiva do Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), o alinhamento com os princípios da Taxonomia Europeia, a promoção da qualidade ambiental interior, a integração de soluções digitais como BIM e Digital Twins e a valorização do edifício perante critérios de financiamento sustentável. A EPBD é a diretiva europeia que estabelece os requisitos necessários para melhorar o desempenho energético dos edifícios, promovendo edifícios mais eficientes, de baixas emissões e preparados para a neutralidade carbónica. A revisão desta diretiva veio reforçar a integração da inteligência e da sustentabilidade nos edifícios, estabelecendo uma trajetória para um parque edificado descarbonizado até 2050. Neste contexto, assume particular relevância a transição dos edifícios com necessidades quase nulas de energia, nZEB, para o novo padrão de edifícios com emissões nulas, ZEB, bem como o Indicador de Aptidão para Tecnologias Inteligentes, SRI. Contudo, a concretização dos objetivos europeus depende, não apenas das opções construtivas adotadas, mas também da capacidade de monitorizar e otimizar em contínuo o desempenho do edifício ao longo da sua vida. É neste contexto que as tecnologias inteligentes assumem um papel fundamental. Atualmente, a inteligência dos edifícios assenta, cada vez mais, na utilização de sensores IoT, sistemas de gestão técnica centralizada (GTC) e ferramentas inteligentes de análise de dados. Tais tecnologias permitem: • Monitorização contínua e em tempo real de consumos; • Ajuste automático dos set points de sistemas como o AVAC e iluminação; • Deteção de fenómenos anómalos, com base no histórico, previsão de consumos e definição de limites; • Gestão eficiente de água e energia, através da monitorização de consumos, deteção precoce de consumos anómalos, controlo de sistemas de rega e acompanhamento de indicadores de desempenho hídrico; • Implementação de estratégias de manutenção preditiva de equipamentos. A capacidade de recolher, analisar e transformar dados em tempo real permite otimizar o desempenho do edifício, apoiar a tomada de decisão e reforçar a eficiência dos recursos ao longo da sua operação. Neste contexto, assume particular importância o SRI, ou Indicador de Aptidão para Tecnologias Inteligentes, uma iniciativa da União Europeia criada no âmbito da EPBD. O indicador permite avaliar a capacidade de um edifício utilizar tecnologias inteligentes para otimizar a eficiência energética e o desempenho durante a utilização, adaptar o seu funcionamento às necessidades dos ocupantes e interagir com a rede energética. Embora o SRI avalie a aptidão tecnológica dos edifícios sobretudo na perspetiva da eficiência energética, da flexibilidade e da interação com os ocupantes e com a rede energética, não abrange de forma autónoma e sistemática o seu desempenho hídrico. O AQUA+ complementa esta abordagem ao avaliar a eficiência na utilização da água, contribuindo para uma visão mais integrada da sustentabilidade do ambiente construído. O AQUA+ E OS EDIFÍCIOS INTELIGENTES Nos últimos anos a atenção esteve centrada sobretudo na energia. Atualmente, temas como a escassez hídrica, a pressão sobre os recursos hídricos, a reutilização de água e a gestão sustentável dos consumos assumem uma importância crescente no setor da construção. “A concretização dos objetivos europeus depende, não apenas das opções construtivas adotadas, mas também da capacidade de monitorizar e otimizar em contínuo o desempenho do edifício ao longo da sua vida. É neste contexto que as tecnologias inteligentes assumem um papel fundamental”
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