76 ENERGIAS RENOVÁVEIS | FORMAÇÃO obrigatória sem continuidade. Estes problemas não são, pois, exclusivos de trabalhadores migrantes, mas tendem a agravar-se quando coincidem com desconhecimento do contexto laboral, dificuldades administrativas e ausência de uma língua operacional comum. Exemplos outros há onde pessoas integradas em iniciativas empresariais, com condições semelhantes de emprego, habitação e acolhimento, tanto entendem que o percurso não se alinha com as suas aspirações, e abandonam o programa, como outras permanecem, e acabam integradas nas empresas. Como tal, a motivação, a estabilidade pessoal e o sentido de compromisso individual são basilares. A perceção geral é de que as equipas já são constituídas por profissionais de várias nacionalidades, reconhecendo que o alcance das metas para a transição energética dificilmente poderá depender apenas da mão de obra atualmente disponível em Portugal. A condição essencial é que os profissionais estejam preparados e trabalhem segundo padrões técnicos e de segurança aplicáveis a qualquer trabalhador. Esta realidade obriga, portanto, a repartir responsabilidades. As empresas devem proporcionar condições dignas, formação, segurança e expectativas claras. As entidades formadoras devem preparar para funções reais, não para uma imagem abstrata do emprego verde. Os serviços públicos e organizações sociais devem apoiar questões linguísticas, administrativas e pessoais. E cada participante deve revelar sentido de assiduidade e pontualidade, comunicar ausências, respeitar instruções e assumir responsabilidade pelo percurso escolhido. DA CADEIA DE CONTRATAÇÃO A UMA RESPOSTA PERMANENTE Há ainda uma dificuldade frequentemente ausente deste debate: grande parte da instalação é realizada por empreiteiros, subempreiteiros ou empresas de trabalho temporário. As organizações mais visíveis do setor nem sempre são as que recrutam, formam e gerem diariamente os trabalhadores em obra. Uma estratégia séria de qualificação terá, por isso, de chegar à cadeia de contratação efetiva, aos encarregados de obra e aos responsáveis de segurança. Mais do que criar sucessivos projetos formativos, importa estabelecer uma ligação permanente entre as necessidades das empresas, a formação disponibilizada e os resultados obtidos no terreno. É neste contexto que o Centro de Formação para a Transição Energética (CTE), criado através de uma parceria IEFP, ADENE e APREN, pode assumir um papel relevante na qualificação, reconversão e atualização técnica de trabalhadores empregados e desempregados. No domínio solar, foi já desenvolvido um programa de cerca de 200 horas orientado para instalação, operação e manutenção, com possibilidade de adaptação a empresas ou grupos de empresas. Contudo, o sucesso não deve medir-se apenas pelo número de cursos realizados ou de certificados emitidos. Deve avaliar-se a competência prática adquirida, a correspondência entre formação e procura, a colocação, a retenção e a evolução profissional. O objetivo não é simplesmente formar mais pessoas, mas preparar melhor os profissionais para as funções de que o setor efetivamente necessita, numa lógica que irá favorecer a articulação entre tecnologias: uma base comum de competências poderá ser complementada por especializações em diversas tecnologias e vetores energéticos, permitindo acompanhar a evolução da procura e facilitar a mobilidade profissional dentro da própria transição. PREPARAR HOJE O TRABALHO DO FUTURO Responder à escassez atual de profissionais é indispensável, mas é necessária uma estratégia que acompanhe todo o percurso de aprendizagem: começar na literacia energética, aproximar os jovens das áreas técnicas e científicas, valorizar o ensino profissional e superior e manter oportunidades de (re)qualificação ao longo da vida. Tal abordagem deve iniciar-se muito antes do primeiro emprego, quando as crianças começam a compreender de onde vem a eletricidade, como funciona uma rede e que profissões existem por detrás de uma tomada. É cada vez mais essencial despertar a curiosidade e fomentar o espírito crítico, tornar visíveis percursos profissionais e combater a desinformação antes que esta se consolide. A transição energética não depende apenas da tecnologia que formos capazes de desenvolver, mas das pessoas que formos capazes de preparar. Formar com antecedência, rigor e ligação ao terreno não é uma medida complementar: é o que permitirá transformar as metas de hoje na realidade de amanhã. n SARA FREITAS Doutoramento em Sistemas de Energia Sustentáveis, focado na implementação da energia solar fotovoltaica nas cidades, e Mestrado em Engenharia da Energia e Ambiente, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Entre 2019 e 2023, foi gestora de projetos e especialista em energia na Lisboa E-Nova - Agência de Energia e Ambiente Lisboa. Desde 2024 que integra a equipa de Política e Inteligência de Mercado na APREN - Associação Portuguesa de Energias Renováveis.
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