BI352 - O Instalador

88 ASSOCIAÇÕES Já nos primeiros nove meses de 2026 a situação foi bastante diferente, com o índice de produtibilidade hidroelétrica a atingir 1,21 — acima da referência histórica. No entanto, setembro trouxe outro tipo de pressão sobre o sistema: o consumo de eletricidade cresceu 6,8% face ao mesmo mês do ano anterior, num aumento influenciado pelas temperaturas elevadas. Embora estes indicadores não apontem, por si só, para uma situação de crise, ilustram como a disponibilidade de produção e as necessidades de consumo podem variar por razões distintas, nem sempre evoluindo de forma favorável em simultâneo. As importações de eletricidade desempenham um papel importante na resposta a estas variações, podendo também ser economicamente mais vantajosas do que a produção nacional. Contudo, a possibilidade de recorrer à energia produzida noutros países não é ilimitada. Apesar da integração do mercado ibérico, a Península Ibérica continua relativamente pouco interligada ao resto da Europa. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia identificou uma capacidade de interligação de cerca de 2.5 GW entre Espanha e França. Esta limitação ajuda a compreender por que razão uma crise de produção na Roménia não se traduz automaticamente num aumento dos preços em Portugal, mas também nos recorda que, perante situações adversas, não podemos dar por garantido o acesso à eletricidade disponível noutras regiões. É precisamente esta questão que deve merecer maior atenção no planeamento energético: até que ponto podemos contar com as alternativas disponíveis quando várias partes do sistema enfrentam dificuldades em simultâneo? A Europa já dispõe de instrumentos para analisar estes riscos. O Regulamento (UE) 2019/941, que estabelece regras para a preparação e gestão de riscos no setor da eletricidade na União Europeia, prevê exercícios de preparação para crises elétricas, incluindo cenários de crise simultânea. O que se considera fundamental é assegurar que esses exercícios, bem como as avaliações de adequação, refletem situações em que diferentes condições adversas se combinam e condicionam várias alternativas ao mesmo tempo: uma seca que reduz a produção hidroelétrica e dificulta o arrefecimento de outras centrais, temperaturas elevadas que aumentam o consumo e países vizinhos a enfrentar dificuldades semelhantes. Esta abordagem exige também uma maior articulação entre o planeamento energético e a gestão dos recursos hídricos, uma vez que a água é igualmente essencial ao abastecimento público, à agricultura e à preservação dos ecossistemas. Esta reflexão tem também implicações concretas para quem projeta e instala sistemas nos edifícios. Afinal, o mesmo calor que agrava a escassez de água aumenta as necessidades de climatização, tornando particularmente relevante não apenas a eficiência desses sistemas, mas também a quantidade de eletricidade que consomem e os momentos em que o fazem. Neste contexto, um melhor isolamento térmico, sistemas de climatização eficientes e corretamente dimensionados, soluções de armazenamento e uma gestão inteligente da procura podem contribuir para reduzir ou deslocar consumos nas horas de maior pressão sobre a rede. Embora não substituam os investimentos em produção e infraestruturas elétricas, estas medidas podem ajudar a aliviar o sistema precisamente nos momentos em que a sua capacidade de resposta é mais limitada. O que se passa no Danúbio não constitui um argumento contra a energia nuclear ou a hidroeletricidade. Pelo contrário, evidencia que avaliar a segurança de abastecimento exige mais do que contabilizar centrais, potência instalada e interligações. Embora todos estes elementos sejam fundamentais, importa também compreender até que ponto continuam a oferecer respostas eficazes quando diferentes partes do sistema enfrentam a mesma restrição. Afinal, uma alternativa só reforça a segurança do sistema se continuar disponível quando outras deixam de estar. n ALEKZANDAR RODRIGUES - REGULATORY AFFAIRS ADVISOR, STATKRAFT Alekzandar é Regulatory Affairs Advisor na Statkraft, dedicando-se a matérias regulatórias financeiras e monitorizando desenvolvimentos regulatórios na Europa, Reino Unido e Estados Unidos. Com formação em Economia, Análise e Gestão de Riscos e Bioética, iniciou a sua carreira na EDP em 2019, nos departamentos de Logística, Serviços Corporativos, Risco Global e Conformidade de Mercado antes de se mudar para Düsseldorf em 2022. Mais tarde, prosseguiu um MBA na Warwick Business School, onde a sua investigação explora a economia comportamental e as suas implicações para a tomada de decisões organizacionais e direção estratégica. Mestre em Economia, pós-graduado em Bioética, MBA.

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