BI352 - O Instalador

87 ASSOCIAÇÕES tecnologias de produção não significa necessariamente diversificar os riscos que têm em comum. Uma central nuclear pode depender da água do rio para condensar o vapor utilizado na produção de eletricidade, enquanto uma barragem aproveita a energia da própria água para movimentar turbinas. Também algumas centrais térmicas convencionais necessitam de água para arrefecimento. Embora os processos sejam diferentes, uma seca prolongada pode condicionar o funcionamento de todas estas instalações, ainda que com efeitos distintos consoante as suas características e as reservas de água disponíveis. Esta dependência da água tornou-se igualmente evidente mais a montante do Danúbio, na Hungria, onde em agosto a produção da central nuclear de Paks caiu para cerca de 240 MW, apesar de dispor de uma capacidade instalada próxima dos 2.000 MW. Com a subida do nível do rio e a adoção de medidas operacionais, as unidades foram recuperando gradualmente a produção, regressando à potência nominal até 26 de agosto. Já em Cernavoda, a situação prolongou-se: a 11 de outubro, os dois reatores continuavam desligados. Assim, embora com consequências e durações diferentes, o mesmo rio acabou por condicionar duas instalações fundamentais para os sistemas elétricos de países distintos. Esta vulnerabilidade pode tornar-se ainda mais preocupante quando a seca coincide com temperaturas elevadas. Por um lado, a escassez de água pode reduzir a produção hidroelétrica e limitar o arrefecimento de outras centrais. Por outro, o calor aumenta as necessidades de climatização e, consequentemente, a procura de eletricidade. O sistema pode, assim, ser chamado a responder a um consumo superior precisamente quando parte da sua capacidade de produção está condicionada. Esta combinação de fatores não é apenas uma possibilidade teórica. Um estudo publicado em 2024 na revista Nature Energy, que analisou cinco sistemas elétricos europeus com produção hidroelétrica, concluiu que, nas condições simuladas, afluências reduzidas na primavera podiam quadruplicar a probabilidade de períodos prolongados de escassez energética. Embora não constitua uma previsão para o Danúbio, o estudo demonstra como diferentes fenómenos meteorológicos podem suceder-se e reforçar os seus efeitos sobre o sistema elétrico. Quando uma central deixa de produzir, a eletricidade que forneceria pode ser substituída por outras fontes de produção ou por importações. No entanto, se essas alternativas forem mais caras ou insuficientes, os preços podem aumentar. É aqui que as interligações desempenham um papel importante, ao permitirem recorrer à eletricidade produzida noutros países. Ainda assim, a sua capacidade é limitada, pelo que a existência de energia mais barata noutro mercado não significa necessariamente que esta consiga chegar em quantidade suficiente para aliviar os preços locais. Estas dificuldades já se faziam sentir no Sudeste europeu antes da atual seca. Num relatório publicado em maio de 2026, em que analisou os episódios de preços elevados registados na região durante o verão de 2024, a Agency for the Cooperation of Energy Regulators (ACER) identificou como principais fatores a falta de flexibilidade para compensar a redução da produção solar ao final do dia e as limitações à importação de eletricidade. Embora a escassez de água não explique, por si só, os preços da região - que também dependem dos custos do gás natural e do carvão, da procura e da disponibilidade de outras fontes de produção - pode agravar as dificuldades de um sistema que já enfrenta limitações no acesso a alternativas. É precisamente por isso que Portugal tem razões para acompanhar o que se passa no Danúbio. Não porque a paragem de Cernavoda determine diretamente o preço da eletricidade no nosso país, mas porque também conhecemos bem a diferença entre ter capacidade de produção instalada e conseguir efetivamente utilizá-la. Em 2022, por exemplo, a seca contribuiu para uma quebra de cerca de 35% na produção hidroelétrica nacional, segundo a REN, com o índice de produtibilidade a situar-se nos 0,63 - bastante abaixo da referência histórica de 1. As barragens continuavam a ser as mesmas, mas a quantidade de eletricidade que podiam produzir era substancialmente inferior.

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