ENTREVISTA 35 saúde, no conforto e na sustentabilidade. Ao longo da conversa, o responsável reflectiu sobre temas como a eficiência energética, a descarbonização dos edifícios, a qualidade dos ambientes interiores e o papel da engenharia na resposta às metas climáticas globais. O tema da sua presidência é “Healthy Buildings: Designing for Life”. Na sua opinião, qual é atualmente o maior obstáculo à criação de edifícios verdadeiramente saudáveis: a disponibilidade da tecnologia, os custos de investimento ou a falta de sensibilização do mercado? O principal obstáculo à criação de edifícios saudáveis é a lacuna estrutural existente entre os orçamentos iniciais de construção e os benefícios de longo prazo, muitas vezes invisíveis, que os espaços interiores de elevada qualidade proporcionam à sociedade. Num projeto de construção típico, os promotores enfrentam a difícil tarefa de gerir os custos imediatos de investimento (CapEx), mantendo simultaneamente a viabilidade financeira dos projetos. Ao mesmo tempo, arquitetos e engenheiros defendem a implementação de sistemas avançados que otimizem os custos operacionais (OpEx) e a qualidade do ar a longo prazo. Como o modelo imobiliário tradicional separa os orçamentos de construção dos futuros benefícios para a saúde dos ocupantes, torna-se difícil justificar os custos iniciais mais elevados associados a sistemas avançados de ventilação e filtração dentro das estruturas financeiras convencionais. No entanto, quando analisamos a situação para além da fase inicial de construção, percebemos que existe uma oportunidade muito maior para promover o bem-estar da sociedade. Como os seres humanos passam cerca de 90% das suas vidas em espaços interiores, a qualidade do ambiente construído tem um impacto direto na saúde, no conforto e no desempenho das pessoas. Os códigos de construção são concebidos para garantir a segurança básica, mas ir mais além pode reduzir significativamente doenças crónicas, alergias e fadiga. Em qualquer organização, os investimentos relacionados com recursos humanos — como salários e cuidados de saúde — superam as despesas com energia numa proporção próxima de cem para um. Investir numa melhor renovação de ar e na qualidade ambiental interior (IEQ) é uma forma altamente eficaz de aumentar a produtividade humana a longo prazo, reduzir o absentismo e promover a saúde pública. Para ajudar o mercado a evoluir para estes padrões mais saudáveis, devemos tratar a qualidade do ar interior como uma prioridade coletiva. Alcançar a visão da ASHRAE de “Healthy Buildings: Designing for Life” exige um amplo esforço de sensibilização junto do público e dos decisores políticos. À medida que aumenta a consciencialização, os ocupantes passarão naturalmente a procurar e valorizar dados de qualidade do ar em tempo real na escolha dos locais onde vivem e trabalham. Paralelamente, quando os legisladores atualizam os regulamentos e criam incentivos financeiros, facilitam o investimento dos promotores em sistemas saudáveis e de elevado desempenho desde o primeiro dia. A qualidade do ar interior tornou-se uma prioridade global nos últimos anos. Considera que os regulamentos e as práticas atuais são suficientes para proteger a saúde dos ocupantes ou serão necessários requisitos mais exigentes para os edifícios do futuro? Os regulamentos e as práticas atuais são claramente insuficientes para proteger a saúde dos ocupantes, e os edifícios do futuro irão exigir normas obrigatórias muito mais exigentes. Historicamente, os códigos de construção concentraram- -se na prevenção de desastres imediatos, como incêndios ou colapsos estruturais, relegando a qualidade ambiental interior (IEQ) para um plano secundário. A maioria dos regulamentos locais limita-se a impor taxas mínimas de ventilação — frequentemente baseadas apenas numa parte das normas existentes — destinadas a controlar odores e diluir concentrações de dióxido de carbono. Estes requisitos mínimos e estáticos não respondem às realidades atuais, como a emissão de compostos químicos por materiais sintéticos, a presença de agentes patogénicos transportados pelo ar ou os fenómenos meteorológicos extremos associados às alterações climáticas, que frequentemente aprisionam poluentes nos espaços interiores. Para colmatar esta lacuna, os futuros regulamentos devem evoluir de abordagens prescritivas para modelos baseados no desempenho contínuo. Esta mudança já está a ganhar força através de iniciativas como a atualização da Norma ASHRAE 62.1-2025, que promove fortemente o Procedimento de Qualidade do Ar Interior (IAQP). Em vez de introduzir simplesmente uma quantidade fixa de ar exterior, os regulamentos do futuro deverão exigir redes inteligentes de sensores IoT capazes de monitorizar, em tempo real, contaminantes como partículas finas (PM2.5) e compostos orgânicos voláteis (COV). A verdadeira proteção da saúde pública exige que os edifícios adaptem autonomamente os seus sistemas de filtração, purificação e ventilação às condições reais do ambiente interior.
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