ENTREVISTA 38 Uma vez que Portugal opera num mercado globalizado dominado por grandes empresas multinacionais, as soluções tecnológicas adequadas ao clima já estão amplamente disponíveis. As principais vantagens competitivas do país residem em dois aspetos: • A vantagem climática: o clima relativamente ameno de Portugal traduz-se em menores necessidades energéticas operacionais quando comparado com países do norte da Europa. • A mudança da lógica do custo inicial para o valor ao longo do ciclo de vida: a maior oportunidade pertence aos profissionais capazes de convencer investidores a olhar para além do menor custo de aquisição, adotando uma perspetiva baseada no desempenho ao longo de toda a vida útil dos edifícios. Para colmatar esta lacuna, o Governo deve liderar pelo exemplo através do seu próprio património imobiliário, criando modelos de referência que incentivem o setor privado a seguir o mesmo caminho. O setor enfrenta atualmente desafios como a eletrificação dos edifícios, a transição para refrigerantes de baixo GWP, a digitalização e a escassez de profissionais qualificados. Qual destes desafios considera mais crítico para o futuro da indústria e porquê? Embora a eletrificação dos edifícios, a transição dos refrigerantes e a digitalização representem transformações tecnológicas de enorme importância, a escassez de profissionais qualificados é, sem dúvida, o desafio mais crítico para o futuro do setor. Atualmente, já dispomos da tecnologia e das ferramentas de engenharia necessárias para descarbonizar o planeta. O problema é que não dispomos dos recursos humanos necessários para implementar essas soluções à escala exigida. Esta falta de profissionais qualificados constitui um estrangulamento que compromete todos os restantes objetivos da indústria. Em termos simples, a tecnologia verde só é eficaz se existirem pessoas capazes de a projetar, instalar e manter. A substituição de milhões de caldeiras por bombas de calor elétricas exige uma enorme quantidade de técnicos qualificados que atualmente não existem em número suficiente. O resultado são atrasos nos projetos e aumento dos custos. Além disso, muitos dos novos refrigerantes de baixo GWP são ligeiramente inflamáveis, tóxicos ou funcionam sob pressões elevadas. Colocar estas tecnologias nas mãos de profissionais insuficientemente preparados representa riscos significativos de segurança e operação. Mesmo a promessa da digitalização e da automação inteligente baseada em inteligência artificial perde eficácia se os técnicos não tiverem formação adequada para programar controladores e calibrar sensores. Por isso, resolver a crise de talento deve ser uma prioridade absoluta. O setor AVAC&R precisa de investir fortemente em escolas profissionais modernas, simplificar os processos de certificação e reposicionar-se como uma indústria atrativa para jovens com competências tecnológicas. Se não conseguirmos formar uma nova geração de profissionais altamente qualificados durante a próxima década, os equipamentos mais avançados e os softwares mais sofisticados permanecerão nos armazéns, e os objetivos globais de sustentabilidade continuarão fora do nosso alcance. A adoção de tecnologias digitais, incluindo automação de edifícios, análise de dados e inteligência artificial, está a transformar a forma como os edifícios são concebidos e operados. Como prevê que estas tecnologias moldem o futuro da indústria AVAC&R? As tecnologias digitais irão transformar os edifícios, convertendo-os de espaços estáticos e pré-programados em ambientes inteligentes e adaptativos. Durante décadas, os sistemas AVAC funcionaram com base em horários rígidos, aquecendo ou arrefecendo espaços vazios simplesmente porque assim estava programado. O resultado inevitável foi o desperdício energético. O futuro passa pela otimização preditiva. Combinando automação inteligente e dados em tempo real, os edifícios poderão consultar previsões meteorológicas, monitorizar a ocupação dos espaços e interagir com a rede elétrica. Desta forma, será possível ajustar automaticamente as condições de funcionamento antes de uma onda de calor ou da chegada de um grande número de pessoas. A inteligência artificial irá também revolucionar a manutenção através do diagnóstico preditivo. Em vez de esperar pela avaria de um equipamento num dia de temperaturas extremas, os algoritmos poderão monitorizar continuamente o seu desempenho e identificar sinais de degradação ou vibrações anómalas semanas antes de ocorrer uma falha. Esta abordagem permitirá reduzir drasticamente as paragens inesperadas e substituir as intervenções de emergência por estratégias preventivas.
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