Covid-19 e a indústria automóvel

Texto e Imagens: UVE - Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos08/04/2020
Este novo Coronavírus, o SARS-CoV2, que disseminou por todo o planeta a doença Covid-19, transformando-se rapidamente numa pandemia que, perante uma crise gigantesca de saúde pública e de emergência sanitária, tem levado os governos de todo o mundo a decretar estados de exceção e de emergência, que têm confinado nas suas residências centenas de milhões de cidadãos, encerrado escolas, estabelecimentos comerciais, fábricas e empresas dos ramos de atividade não essenciais.

Este brusco e nunca visto abrandamento das atividades humanas, teve como consequência uma redução imediata das emissões de gases tóxicos, especialmente visível nas grandes cidades e áreas metropolitanas, com a paragem ou redução dos transportes rodoviários movidos a combustíveis fósseis, transportes públicos e veículos particulares, mas também a aviação comercial, com uma redução do tráfego aéreo de cerca de 90% a 95%, bem como a paragem da esmagadora maioria dos navios de cruzeiro.

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Emissão de Dióxido de Nitrogénio na Península Ibérica (março 2019 vs. março 2020). Fonte: ESA (Agência Espacial Europeia).

As consequências da gigantesca paragem da atividade humana sobre os territórios possibilitaram às diversas agências internacionais, como a NASA e a ESA, monitorizar quebras muito significativas dos níveis de CO2 e de gases tóxicos de nitrogénio (NOx), e obtiveram-se imagens comparativas, entre o antes e o depois destas restrições, que têm permitido confirmar, na prática, que sim, é possível tornar as cidades ambientalmente mais sustentáveis, com níveis de qualidade do ar compatíveis com as necessidades dos humanos, assim como níveis de ruído aceitáveis para os ouvidos humanos.

Há também vários estudos que mostram que a severidade da Covid-19 - incluindo a letalidade - está intimamente ligada aos níveis de poluição atmosférica a que os afetados estiveram sujeitos no passado, com um aumento marcado da letalidade, mesmo em locais com níveis de poluição atmosférica moderados.

Constatou-se que:

  • Cerca de dois meses após a quarentena em Wuhan, a qualidade do ar melhorou 21,5%;
  • Na China, a redução de CO2 atingiu cerca de 25%;
  • A poluição do ar em Barcelona e Madrid reduziu cerca de 50%;
  • Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o número de mortes relacionadas com a poluição atmosférica atinge os 7 milhões de pessoas por ano.
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China, dezembro 2019, fevereiro 2020 e março 2020. Fonte: ESA (Agência Espacial Europeia).
São muitas e variadas as imagens que nos demonstram o que, em teoria, já sabíamos: os transportes rodoviários são uma das principais fontes de poluição nas grandes áreas metropolitanas.
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Com a redução do ruído, também pudemos todos ouvir, de novo, o canto dos pássaros no interior das nossas cidades, mas também o atrevimento de certas espécies a invadirem territórios que os humanos tinham abandonado, rebanhos de cabras no País de Gales, veados no Japão, macacos na Tailândia, cervos em Odivelas, faisões em Madrid, javalis em Itália, peixes em Veneza, e um sem fim de situações que nos vieram lembrar que não estamos sós neste planeta.
Que reflexão podemos então fazer, destas consequências, destes efeitos colaterais do abrandamento da atividade humana, e da enorme redução do tráfego rodoviário, aéreo e marítimo, através da utilização de veículos com motores de explosão movidos a combustíveis fósseis?

Urge:

  • Acelerar a eletrificação dos transportes públicos nas grandes cidades;
  • Avançar decisivamente para a eletrificação das frotas empresariais;
  • Promover o transporte ferroviário eletrificado como alternativa ao transporte aéreo;
  • Apoiar e incentivar a eletrificação do transporte particular, individual ou coletivo.
Enfim, nunca se fez tão urgente promover a eletrificação de todos os veículos e formas de mobilidade!

Este ano de 2020, é o ano em que começaram a ser contabilizadas as emissões dos automóveis produzidos e comercializados na Europa, o CAFE (Clean Air For Europe), que impõe aos fabricantes emissões máximas de CO2 de 95 g/km, sob pena de imposição de pesadas multas a partir de janeiro de 2021.

Com esta paragem brutal da atividade económica, aqui incluída a indústria automóvel europeia, temos assistido a algumas movimentações dos grandes fabricantes europeus, para a implementação de uma moratória na aplicação das regras do CAFE e para uma efetiva ajuda financeira às respetivas empresas por parte, quer dos respetivos governos nacionais, quer da própria União Europeia.

A UVE - Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos defende que esta é uma oportunidade histórica para avançarmos decisivamente para a eletrificação de todo o tipo de transportes, sendo que, qualquer moratória ou ajuda financeira deverá ser sempre acompanhada de exigências aos fabricantes que vendam no espaço europeu, de acelerarem os planos de eletrificação dos seus veículos, com prazos bem definidos e mais curtos do que os previstos antes da atual crise que atravessamos.

Que os governos das cidades tenham essa capacidade e visão de transformar os sacrifícios e restrições que atravessamos atualmente em avanços claros e decisivos na construção de cidades mais amigas do ambiente, dos seus habitantes e visitantes.
Que o governo nacional intervenha, através da adoção de políticas públicas, no sentido de promover a produção e a comercialização de veículos elétricos em Portugal, quer através de políticas fiscais ou de incentivos à aquisição dos mesmos, assim como do incentivo à criação de fábricas de baterias e de legislação simplificada que permita a conversão de veículos com motor de explosão em veículos elétricos.
Esta é uma oportunidade para avanços significativos, quer no cumprimento dos acordos internacionais assinados pelo governo português, como o Acordo de Paris, quer para acelerarmos políticas nacionais, como seja o Roteiro para a Neutralidade Carbónica RNC2050.
Não queremos voltar à chamada “normalidade” anterior à atual crise, pois foi essa mesma “normalidade” que nos trouxe até aqui.
É nestes períodos de grande instabilidade e de crise em que já percebemos que nada irá ficar igual ao que estava, que devemos ter a capacidade de inovação para avançarmos com as políticas públicas necessárias à implementação das decisões de mobilidade e de transportes, urgentes e essenciais à construção de sociedades mais justas, mais sustentáveis, mais humanas, e que nos permitam a todos, como comunidade, vivermos melhor.
Claro que é possível, só depende de nós, de nós todos.
Reduza ou elimine a utilização de combustíveis fósseis.
Utilize transportes coletivos ou individuais, de preferência eletrificados.
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