Informação profissional do setor das instalações em Portugal

Pandemia: uma oportunidade para a reabilitação urbana

Alexandra Costa18/02/2022
Dois anos de Covid podem atrasar os objetivos definidos pela Comissão Europeia no que concerne à reabilitação dos edifícios. No entanto a opinião dos especialistas é que esta situação deve ser, simultaneamente, encarada como uma oportunidade para promover a novos modelos de negócio baseados na economia circular e avançar na utilização de produtos reciclados e/ou locais.
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A pobreza energética das habitações é uma das preocupações da Comissão Europeia, que disponibilizou fundos para que os seus Estados-membros possam levar a cabo iniciativas de reabilitação urbana. Portugal, por exemplo, definiu 610 milhões de euros no Plano de Recuperação e Resiliência (PPR) para a promoção da eficiência em edifícios residenciais, administração pública central e de serviços. No entanto, o chumbo do Orçamento de Estado e consequente antecipação das eleições legislativas (que tiveram lugar a 30 de janeiro), com todas as consequências adjacentes, pode, na opinião de Joana Silva, Skilled Sustainability Athlete | ESG Risks & Real Estate/Construction da Systemic, trazer desafios não só à concretização dos programas e projetos iniciados sob financiamento da União Europeia (UE) mas ainda à criação de novas medidas de financiamento.

Apesar de tudo, e tendo em conta a “adesão manifestada em 2021, a iniciativas como o 'Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis' ou o 'Vale Eficiência', espera-se que, no ano vigente, exista uma extensão nos prazos dos programas e/ou que surjam mais programas com verbas idênticas ou superiores às dos anos anteriores”.

Mas serão estas medidas (e quantias) suficientes? A opinião da especialista da Systemic é que “os horizontes serão revistos”. Em causa, também “o conhecimento futuro e tecnologias ainda não desenvolvidas, mas sempre no caminho de atingir objetivos cada vez mais ambiciosos do que aqueles com os quais atualmente nos comprometemos”.

Uma questão de mão-de-obra

Não há pessoas para trabalhar. Esta é uma queixa generalizada. No que concerne à questão específica da reabilitação do edificado, Joana Silva relembra que, de “acordo com as estatísticas do Sistema de Certificação Energética dos Edifícios, à data de hoje, 67% dos certificados energéticos dos edifícios possuem classe C ou inferior. Sendo as Classes C e D com maior predominância, 25,0% e 21,5% respetivamente”. Os números não mentem. “Há uma necessidade desmedida de edifícios que necessitam de intervenções de cariz energético”, afirma a especialista, que acrescenta que, com o crescimento na construção e reabilitação que se têm sentido e, juntamente, com os financiamentos em prol da eficiência energética, a mão-de-obra terá de, gradualmente, suprir a procura. Isto porque, como refere Joana Silva, um dos objetivos do Acordo de Paris (2015), essencial à transição para economia verde e de baixo carbono, é justamente a “criação de trabalho digno e empregos de qualidade”.

E, neste cenário, plataformas como o CLASSE+ “têm um papel crucial, pois permitem a ligação direta entre os proprietários e os prestadores de serviços, neste caso específico, no apoio à escolha/instalação de janelas”.

Que “pontos” atacar em matéria de reabilitação urbana

O primeiro passo em qualquer obra de reabilitação é o de fazer um diagnóstico. E aqui, refere Nélson Lage, presidente da ADENE, o certificado energético é, particularmente, útil, pois permite um diagnóstico técnico e detalhado do edifício e do que nele pode ser melhorado para aumentar o seu desempenho energético, tornando a casa mais eficiente e confortável.

Com cerca de 25% dos imóveis nacionais já identificados, é possível saber quais as principais oportunidades de melhoria, “identificadas em quase 2/3 dos certificados emitidos”. Na opinião do presidente da ADENE, dizem respeito “à aplicação ou reforço do isolamento de paredes e coberturas e à substituição de janelas por outras mais eficientes”. Mas não exclusivamente. Como refere Nelson Lage, segue-se a substituição dos equipamentos de produção de água quente e de aquecimento ambiente, por soluções mais modernas e eficientes que possibilitem um uso mais eficiente da energia. Em complemento à instalação de equipamentos mais eficientes, temos sempre a oportunidade de introdução de fontes de energia renovável, como, por exemplo, a colocação de coletores e painéis solares e preferência por caldeiras a biomassa”, acrescenta.

Já Joana Silva dá dicas mais específicas, por exemplo, substituir as lâmpadas por iluminação LED e optar por eletrodomésticos com classes energéticas superiores. Como refere a especialista, “o custo-benefício destas pequenas alterações é elevado e, uma vez que não implicam obra, poderão ser um primeiro passo na procura pela eficiência energética e, consequentemente, na redução da fatura de energia”. Quanto à reabilitação propriamente dita, a opinião de Joana Silva é que deverá ter-se em consideração estratégias para que promovam o conforto térmico, através de boas soluções de isolamento e substituição de janelas; recurso a sistemas de climatização eficientes como bombas de calor e, ainda, colocação de painéis solares térmicos e fotovoltaicos.

Mas, por muitas melhorias que se façam, há que ter em atenção algo muito importante: a gestão e controlo dos equipamentos consumidores de energia. “A tendência é de termos edifícios cada vez mais inteligentes, nos quais a existência e boa utilização de sistemas de controlo e gestão de energia é fundamental para um dia-a-dia mais sustentável”, afirma Nelson Lage, acrescentando que a associação tem apostado numa vertente que normalmente passa despercebida: a eficiência hídrica. “Poupar água, em particular água quente sanitária, é também poupar energia”. Para ajudar nesta matéria, a ADENE desenvolveu um sistema de classificação da eficiência hídrica de imóveis, AQUA+ (www.aquamais.pt), que à semelhança do SCE, ajuda os promotores e proprietários a saber o que podem fazer para que o edifício seja mais eficiente no uso da água. Algo extramente útil dado que, como afirma o presidente da ADENE, “dependendo da situação do edifício, a poupança de água pode ser de 30 a 50% do consumo convencional”.

Por outro lado, e como refere Joana Silva, aquando da descarbonização dos edifícios, deveria ser tido em conta todo o ciclo de vida do edifício, desde a sua construção, passando pela utilização, às reabilitações periódicas e, por fim, à demolição. “Na construção, reabilitação, assim como na demolição, o recurso a materiais com baixo carbono ganha particular relevância”, afirma a especialista.

Constrangimento no acesso às matérias-primas: uma oportunidade para melhorar

Questionada sobre as consequências da pandemia no que concerne aos constrangimentos de acesso às matérias-primas, fruto da pandemia, Joana Silva considera que podemos encarar a situação das “matérias-primas como uma oportunidade para alavancar a adoção de novos modelos de negócio baseados em princípios de economia circular”. Como? Simples, “promovendo a reutilização de materiais e a utilização de uma maior percentagem de materiais reciclados na construção/reabilitação e, ainda, uma preferência por produtos locais, reduzindo assim o risco associado a possíveis constrangimentos logísticos”.

Nelson Lage, por seu lado, realça que o progresso tecnológico permite uma rápida evolução na eficiência energética dos edifícios, pautada pela natural e progressiva introdução de novas técnicas e materiais. E dá como exemplo o setor da caixilharia, que “hoje apresenta novos materiais, novos modelos construtivos dos perfis, novas técnicas e automatização da fabricação e que permitem ter caixilharias de elevada eficiência energética”. Os dados recolhidos pela etiquetagem energética CLASSE+, uma iniciativa voluntária da ADENE, indicam que “praticamente todas as janelas produzidas e colocadas no mercado português têm classificações elevadas, de A ou A+”. Aliás, segundo Nelson Lage, a Agência prevê, para breve, e em articulação com a associação do setor (a ANFAJE), “uma revisão e reescalonamento, reforçando os critérios de exigência da classificação e introduzindo também outras dimensões relacionadas com a sustentabilidade ambiental dos materiais que compõem as janelas enquanto elemento construtivo”.

Quanto aos efeitos desses constrangimentos nos preços das matérias-primas, Joana Silva considera que os limites monetários das comparticipações, dentro dos programas de apoio, têm de conseguir acomodar a inflação e aumentar em função da mesma, de modo a não condicionar a concretização dos objetivos definidos tanto ao nível nacional como ao nível da UE.

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O que diz a banca

A breve trecho, a etiquetagem energética dos edifícios terá, também, impacto na banca, nomeadamente, por exemplo, ao nível da obtenção de financiamento. Como refere Joana Silva, a banca já reconhece, quer os riscos ambientais e climáticos, quer os riscos financeiros. Mesmo porque, ao nível da UE, “existe cada vez mais regulamentação para o setor financeiro em temas relacionados com Finanças Sustentáveis”. Em Portugal os bancos começam a incorporar estes riscos nas decisões de investimento e concessão de crédito. Como explica Joana Silva, isto “poderá traduzir-se em penalizações ou benefícios atribuídos a créditos com maior ou menor risco, respetivamente”, acrescentando que “tendo em conta que os ativos imobiliários, por serem associados a investimentos de longo-prazo e de liquidez baixa, têm um custo de transação elevado e, sobretudo, porque têm uma localização física imutável, estes riscos devem ser incorporados para uma avaliação de risco precisa”. Dito de outra forma, “se um edifício tiver um certificado energético de classe elevada, será mais resiliente face aos impactos derivados das alterações climáticas, como por exemplo, ondas de calor no verão e vagas de frio no inverno”. Melhor avaliação igual a menor risco.

Esta é uma volta sem retorno. E não apenas por ser uma “ordem” da Comissão Europeia. É uma medida que beneficia o País e a economia. E que o próprio mercado está a comandar.

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