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Tendências 2026

Um setor sob pressão máxima: o que muda, o que exige, o que falta

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O setor europeu de aquecimento, ventilação e ar condicionado (AVAC) chega a 2026 numa fase crítica de transformação. O mercado cresce, mas fá-lo num contexto cada vez mais exigente: mais regulação, mais tecnologia, mais pressão sobre custos e, sobretudo, maior responsabilidade técnica para quem projeta, instala e mantém sistemas.

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Dois estudos europeus recentes ajudam a perceber o que está a mudar no terreno: o Europe HVAC Industry Outlook Report 2025–2030, da Research and Markets, e o REPower Regions – Landscape Analysis Report, focado na descarbonização dos sistemas de aquecimento e arrefecimento. As conclusões não deixam margens para dúvidas: há oportunidades, mas também riscos reais para quem não acompanhar a evolução do setor.

Segundo o Europe HVAC Industry Outlook Report 2025–2030, o mercado AVAC europeu deverá passar dos 68,8 mil milhões de dólares de 2024 para cerca de 99,3 mil milhões em 2030, o que corresponde a um crescimento médio anual de 6,3%.

Este crescimento acontece apesar de fatores adversos bem conhecidos no setor:

  • volatilidade dos preços da energia;
  • tensões geopolíticas e comerciais;
  • aumento dos custos de componentes;
  • reforço da legislação ambiental.

A Europa Ocidental mantém-se como principal motor do mercado, com mais de 56% da quota, impulsionada pela reabilitação urbana, edifícios de serviços, indústria e maior capacidade de investimento. Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha continuam a liderar a procura.

Clima e conforto já mandam no mercado

As alterações climáticas deixaram de ser um tema abstrato. No sul da Europa, incluindo Portugal, as ondas de calor mais frequentes estão a tornar o ar condicionado e o arrefecimento eficiente indispensáveis, inclusivamente em edifícios residenciais onde antes não existiam.

Nos países do Norte e do Leste, os invernos prolongados continuam a sustentar a procura por soluções de aquecimento, com destaque para as bombas de calor, hoje posicionadas como tecnologia-chave da transição energética.

A par do conforto térmico, consolidou-se definitivamente a preocupação com a qualidade do ar interior (IAQ). A ventilação adequada passou a ser vista como um requisito básico, e não como um extra. Sistemas de ventilação controlada pela procura (DCV), filtros HEPA, UV-C e unidades de tratamento de ar mais eficientes tornaram-se comuns em edifícios de serviços, ensino, saúde e escritórios.

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Já não basta trocar máquinas

Uma das conclusões mais relevantes dos dois estudos é que o mercado já não cresce apenas pela substituição de equipamentos antigos. O verdadeiro motor está na transição para sistemas completos, integrados e inteligentes.

As principais tendências até 2030 incluem:

  • bombas de calor como solução central de aquecimento e arrefecimento;
  • sistemas modulares e descentralizados, mais fáceis de adaptar a edifícios existentes;
  • integração de sensores, IoT, BMS e monitorização em tempo real;
  • ventilação mecânica com recuperação de calor como prática corrente;
  • substituição de equipamentos por soluções eco-design, baixo GWP e alta eficiência.

O relatório REPower Regions, baseado em 68 casos reais, mostra que muitos ganhos energéticos foram alcançados não com grandes obras, mas com comissionamento correto, afinação de sistemas e melhoria do controlo. Em vários edifícios, o problema não estava no equipamento, mas na forma como era operado.

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Falta de técnicos qualificados é o maior risco

Apesar do crescimento do mercado, ambos os estudos apontam para um problema crítico: a escassez de profissionais qualificados.

Hoje, o desafio no terreno já não é apenas instalar uma bomba de calor ou uma UTA. É:

  • dimensionar corretamente;
  • trabalhar com sistemas híbridos;
  • configurar e afinar controlos;
  • interpretar dados de funcionamento;
  • garantir que o sistema funciona como projetado após a entrada em operação.

 

O REPower Regions identifica algumas falhas:

  • pouca experiência prática com BMS e sensores;
  • défice de formação em comissionamento e diagnóstico;
  • fraca literacia regulatória (EPBD, Eco-design, etiquetagem energética);
  • dificuldades na adaptação à digitalização, sobretudo entre técnicos mais experientes.

O Industry Outlook confirma a falta de mão de obra qualificada como uma das principais limitações ao crescimento do setor AVAC nos próximos anos.

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Custos, tarifas e regulação apertam margens

O setor enfrenta também pressão económica. Os custos iniciais dos sistemas eficientes, a dependência de componentes importados — como compressores, eletrónica e sensores — e o impacto das tarifas comerciais refletem-se diretamente nos preços e nos prazos. As pequenas e médias empresas são, muitas vezes, as mais expostas.

Em paralelo, a regulação acelera. A revisão da Diretiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), o pacote Fit for 55 e o REPowerEU estão a empurrar o mercado para soluções de baixo carbono, reduzindo a margem para sistemas ineficientes e encurtando ciclos de vida dos produtos.

Como resposta, começam a ganhar peso:

  • a localização da produção,
  • soluções modulares,
  • e uma abordagem mais focada no custo total do ciclo de vida, e não apenas no preço de aquisição.

O que podemos esperar este ano

Segundo os estudos, o setor AVAC europeu vai continuar a crescer, mas fá-lo-á num ambiente mais competitivo, mais regulado e tecnicamente mais exigente. A capacidade de adaptação das empresas dependerá, cada vez mais, da qualificação das equipas, da integração tecnológica e da capacidade de acompanhar a evolução normativa.

É neste contexto que 2026 se afirma como um ano de alta pressão. Um momento em que o crescimento deixa de depender apenas do volume de mercado e passa a exigir competência técnica, planeamento e visão estratégica. Para quem trabalha no terreno, o futuro do AVAC já começou, e será tão sólido quanto a preparação do setor para o enfrentar.

Neste contexto, ganha especial relevância ouvir a opinião das associações portuguesas que vivem diariamente esta mudança no terreno e que ajudarão a completar o retrato traçado pelos números do estudo.

Opinião de quem conhece bem o setor
Celeste Campinho, presidente da direção da AIPOR – Associação dos Instaladores de Portugal

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"A tecnologia está a moldar o setor HVAC e o Mundo das Instalações Técnicas Especiais não é exceção. É por isso que este ano, a tecnologia, suportada por produtos, equipamentos e sistemas cada vez mais inteligentes, continuará a marcar este segmento, ancorado cada vez mais pela Inteligência Artificial (IA), a que instaladores, projetistas e fabricantes terão de se adaptar.

A transformação digital, a sustentabilidade, a eficiência energética, a qualificação de talentos e a internacionalização são igualmente eixos estratégicos que a AIPOR - Associação dos Instaladores de Portugal releva, e que exigem uma abordagem integrada e ações concretas para garantir a competitividade do setor. Nesta senda, é fundamental não desperdiçar a oportunidade dos instrumentos financeiros disponíveis, como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), decisivo este ano na sua boa execução, e o Portugal 2030. Ambos representam uma oportunidade única em termos de investimentos no setor.

Num momento em que o setor da Construção e Imobiliário enfrenta desafios e oportunidades únicas, o alerta maior (e que continua a ser uma urgência) passa pela escassez de mão de obra especializada, mas também pela necessidade de reforçar a formação técnica contínua. É fundamental apostar na melhoria e qualificação dos profissionais.

 

OCP da AIPOR acreditado para CO2 e Amoníaco

É por isso que, nesta matéria, a AIPOR trabalha e continuará a apostar no conhecimento e validação de competências das pessoas, nomeadamente, para o setor AVAC-R, através do seu Organismo de Certificação de Pessoas (OCP), acreditado pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC) para o âmbito de certificação de técnicos de manuseamento de gases fluorados com efeito de estufa e substâncias alternativas - certificados A1, A2, B, C, D e E. Destacamos a importância do OCP da AIPOR que, em novembro de 2025, foi o primeiro organismo acreditado em Portugal para emitir novos certificados para Dióxido de Carbono (CO2) e Amoníaco (NH3), de acordo com o Regulamento (UE) 2024/573 e o Regulamento de Execução (UE) 2024/2215.

Assim, e a título informativo, o OCP da AIPOR é o único Organismo acreditado para certificar os técnicos, conforme segue:

  • Certificado A1 (gases fluorados + hidrocarbonetos);
  • Certificado A2 (gases fluorados + hidrocarbonetos - cargas inferiores a 3kg ou 6kg se for equipamento hermético);
  • Certificado B (dióxido carbono - CO2);
  • Certificado C (amoníaco - NH3);
  • Certificado D (recuperação de gases fluorados);
  • Certificado E (deteção de fugas de gases fluorados que não implique uma intervenção no circuito frigorífico).

A certificação técnica de pessoas é crucial para atestar competências e oferecer segurança e qualidade na prestação de serviços.

Para mais informações, consulte o site da AIPOR ou contacte-nos através do endereço de email: ocpaipor@aipor.pt

Deixamos o repto a todos os profissionais: contem connosco para vos ajudar!"

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Opinião de quem conhece bem o setor
Nuno Roque, diretor-geral da APIRAC - Associação Portuguesa das Empresas dos Setores Térmico, Energético, Electrónico e do Ambiente

“Vivemos tempos de transformação. Há quase 10 anos, a Comissão Europeia publicou a sua primeira Estratégia de Aquecimento e Refrigeração. Desde então, o sistema energético da União Europeia (UE) mudou. Assumiu a direção da descarbonização total, tendo em vista a neutralidade climática em 2050 e as metas intermédias de energias renováveis e eficiência energética para 2030 e, potencialmente, 2040. A urgência desta trajetória foi ainda mais sublinhada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, que revelou a dependência da UE dos combustíveis fósseis importados.

Com o novo regulamento F-Gas a UE impõe restrições mais severas sobre o uso de HFC, condicionando a transição para alternativas de baixo potencial de aquecimento global. A legislação europeia aponta para que a partir de 2036, a redução da utilização desta geração de fluidos frigorigéneos passe a apenas 15%, e que no ano de 2050 se atinja o objetivo do fim da sua utilização.

Uma nova era em que os gases fluorados perderão protagonismo: o calendário de eliminação progressiva determina que a utilização de gases fluorados só será possível para as tarefas de manutenção, principalmente com fluidos recuperados; que os sistemas de Refrigeração e Climatização sejam ainda mais eficientes e seguros, ao passarem a utilizar fluidos frigorigéneos alternativos com um baixo PAG, porque nuns casos são inflamáveis, noutros com elevadas pressões e, em aplicações muito específicas, tóxicos. Uma nova era que aponta para a eficiência energética e otimização no funcionamento e utilização dos sistemas, na qual os SACE serão protagonistas.

Tal implica o desenvolvimento de uma linguagem uniforme sobre aspetos de ordem técnica e de segurança, particularmente tendo em conta com a transição em curso para fluidos inflamáveis A2L e A3, mas também com elevadas pressões e toxicidade. O exemplo da Regulamentação para os Gases Fluorados e suas alternativas deve ser a referência para a metodologia a seguir para a correta implementação das Diretivas Europeias EPBD e REDIII.

A importância dos regulamentos sobre as diretivas assenta no estabelecimento de critérios objetivos, a que tem de ser dada resposta por Estados-Membros, empresas e profissionais. Nesse prisma, a certificação profissional é a única resposta possível. Sem ocupar o espaço e a importância da absoluta necessidade de formação verdadeiramente qualificante do ponto de vista da transferência de competências e saberes, é a certificação profissional que garante que todos falam a mesma linguagem e estão confirmadas e testadas as suas competências para a exigências das tarefas, sendo que são válidas para Portugal, Espanha, Luxemburgo, Polónia, Alemanha ou República Checa.

A atualização técnica de tecnologias e pessoas deve ser ainda acompanhada de fortalecimento de competências sociais e de liderança. Comunicação eficaz, adaptabilidade e trabalho em equipa serão essenciais à medida que o Setor evolui, particularmente com a integração de Inteligência Artificial, Automação e Controlo de Edifícios.

A APIRAC está fortemente comprometida com toda a cadeia de valor para assegurar as condições que permitam às empresas responder aos exigentes desafios que se colocam para a próxima década. Juntamente com a APIEF e o CENTERM, a APIRAC tem desenvolvido e disponibiliza o apoio necessário para a transição desejada.”

Opinião de quem conhece bem o setor
Onésimo Silva, presidente da Efriarc - Associação Portuguesa dos Engenheiros de Frio Industrial e Ar Condicionado

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“O mercado do AVAC&R entra em 2026 com uma combinação de oportunidades e pressão competitiva, impulsionado por três fatores: maior exigência de eficiência energética, subida do custo da energia e necessidade de melhorarias no conforto térmico e na qualidade do ar interior. Com o prazo para a transposição da nova EPBD para a legislação nacional a terminar em meados do ano, avizinham-se tempos decisivos para o sector.

A reabilitação do edificado continuará a ser motor de muitos projetos, sendo a substituição de equipamentos antigos por soluções de maior rendimento uma das formas mais rápidas de reduzir consumos e emissões. Contudo, a nova construção e o investimento no setor terciário também dinamizarão o mercado. A qualidade do ar interior ganha destaque na reformulação da EPBD, reforçando a aposta na saúde dos ocupantes.

O financiamento é ponto crítico: projetos com bom retorno energético terão vantagem. O papel do projetista ganha importância vital ao justificar investimentos iniciais mais elevados através da análise do ciclo de vida, que também está patente na revisão da EPBD.

A eletrificação e a descarbonização mantêm-se como objetivos principais da UE, apesar dos recuos nas políticas. As bombas de calor ar-água e ar-ar continuam protagonistas, com melhorias de eficiência, integração solar e controlo inteligente. Do lado da oferta, 2026 será marcado por maior foco em refrigerantes de baixo GWP e por fabricantes a apostar em gamas “future-proof”.

Porém, a transição regulamentar apresenta desafios para a realidade portuguesa, nomeadamente no cumprimento da legislação, com implicações nas soluções de projeto e formação de técnicos.

A revisão da EPBD promove a gestão de edifícios orientada por dados, exigindo monitorização periódica do consumo energético e da performance dos sistemas. A conformidade teórica dará lugar à verificação dinâmica, tornando o desempenho real o novo padrão. O mercado terá de acelerar a digitalização, com sistemas de monitorização, manutenção preditiva e otimização em tempo real.

Paralelamente, cresce o interesse por soluções híbridas de AVAC e produção de AQS, com a integração de tecnologias de produção de energia (fotovoltaico e/ou solar térmico) nas soluções do mercado para conforto térmico e produção de AQS, assim como, na utilização de solução de armazenamento térmico, de forma a diferir picos de carga/consumo com a disponibilidade real do recurso renovável.

A escassez de mão de obra qualificada permanece como risco global, elevando a importância de formação e certificação. A colaboração entre instituições e empresas para programas de formação contínua é essencial.

Assim, o ano de 2026 será um ano dinâmico, com oportunidades significativas, sendo necessário estreitar a colaboração entre os profissionais do setor, empresas e associações representativas, de forma a se trabalhar em conjunto por um parque edificado mais sustentável e de qualidade.”

Estudos

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