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Tendências económicas para 2026: um ano de transformação e resiliência industrial

Marta Clemente09/02/2026
Entre um crescimento económico moderado, cadeias de valor sob pressão e uma aceleração tecnológica sem precedentes, 2026 afirma-se como um ano de decisões críticas para a indústria. Mais do que antecipar cenários, as empresas são chamadas a transformar tendências estruturais em vantagem competitiva num contexto marcado por maior seletividade económica.

O início de 2026 encontra o tecido industrial europeu num momento de estabilização frágil, após vários anos de choques sucessivos – pandemia, inflação elevada, conflitos geopolíticos e disrupções logísticas. Embora os indicadores macroeconómicos apontem para alguma normalização, subsistem condicionantes estruturais que limitam o crescimento e impõem maior rigor nas decisões de investimento. Neste contexto, temas como sustentabilidade, digitalização, reorganização das cadeias de abastecimento e governação tecnológica deixam de ser abordagens prospetivas e passam a integrar o núcleo da estratégia empresarial.

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Crescimento contido e incerteza estrutural

As perspetivas para a economia global em 2026 apontam para um crescimento moderado. De acordo com o mais recente relatório da Crédito y Caución, o PIB mundial deverá crescer cerca de 2,6%, refletindo um abrandamento, ainda que com uma recuperação ligeira projetada para 2027.

Na Zona Euro, a recuperação deverá situar-se em torno dos 0,9%, penalizada pela lenta retoma industrial e pelos efeitos prolongados das tensões comerciais. Ainda assim, países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia deverão beneficiar do dinamismo do setor dos serviços – em particular turismo, logística e serviços técnicos – com impacto indireto sobre a atividade industrial, quer através da procura interna, quer pelo estímulo ao investimento e à modernização de infraestruturas.

Para a indústria, este enquadramento traduz-se num ambiente mais seletivo, marcado por maior rigor no acesso ao financiamento e pressão sobre margens, exigindo foco na eficiência operacional e na diferenciação.

Comércio internacional: desaceleração e reconfiguração

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que as empresas exportadoras nacionais perspetivam um aumento nominal de 5,1% nas exportações de bens em 2026, com destaque para as exportações de máquinas e outros bens de capital, que deverão crescer 12,2%.

A redução da procura global de contentores e a descida dos custos de transporte aliviam algumas pressões conjunturais, mas não eliminam riscos estruturais, nomeadamente a dependência de matérias-primas críticas e a volatilidade dos preços da energia, que continuam a condicionar setores industriais intensivos em capital e exportação.

Neste cenário, ganham relevância estratégias de diversificação de fornecedores, regionalização produtiva e investimento em rastreabilidade ao longo da cadeia de valor, como resposta a um comércio internacional mais fragmentado e exigente.

Sustentabilidade: de reporte a decisão estratégica

A sustentabilidade consolida-se em 2026 como um eixo central da decisão empresarial. Esta foi uma das mensagens-chave do webinar ‘Tendências ESG 2026 e mais além’, promovido pelo BCSD Portugal, que reuniu especialistas das áreas de foresight, tecnologia e consultoria estratégica.

Durante a sessão, Rafael Popper, diretor da área de consultoria da Futures Capacity Academy (FCA), académico, investigador e reconhecido consultor internacional especializado em foresight, sublinhou que o essencial não está em prever o futuro, mas em preparar as organizações para diferentes cenários possíveis, transformando incerteza em opções estratégicas.

Na mesma linha, Manuel Mota, partner da EY e líder da área de sustentabilidade para Portugal, Angola e Moçambique, destacou que muitas empresas estão a adotar voluntariamente quadros de referência de sustentabilidade, mesmo não estando abrangidas por obrigações formais de reporte, reconhecendo vantagens competitivas ao nível da reputação e do acesso a financiamento.

A simplificação recente de alguns enquadramentos regulatórios, embora alivie encargos para determinadas empresas, levanta desafios em matéria de comparabilidade e governação, reforçando a responsabilidade das organizações na definição de critérios consistentes e credíveis.

Tecnologia ao serviço da indústria

A aceleração tecnológica mantém-se em 2026 como um dos principais motores de transformação industrial. A maturidade crescente da Inteligência Artificial, a consolidação de modelos de cloud híbrida e multicloud e o reforço das exigências em cibersegurança estão a redefinir prioridades de investimento.

De acordo com análises da Colt Technology Services, a IA entra numa fase em que o foco deixa de ser a experimentação e passa a centrar-se na geração efetiva de retorno. Após investimentos significativos, o desafio passa por integrar estas soluções nos processos industriais, assegurando ganhos mensuráveis de eficiência, fiabilidade e previsibilidade.

A expansão do edge computing, impulsionada pela necessidade de processamento em tempo real e pela soberania dos dados, terá impacto particular em ambientes industriais, permitindo suportar automação avançada e monitorização contínua ao aproximar a capacidade de computação do chão de fábrica.

Em paralelo, 2026 será marcado pela entrada em vigor de novos quadros regulatórios europeus, como o AI Act e o Cyber Resilience Act, com impacto significativo na indústria e exigindo uma abordagem mais estruturada à governação tecnológica, nomeadamente em sistemas de OT (Operational Technology).

Impactos setoriais: desafios comuns, respostas diferenciadas

Indústria de plásticos

Para a indústria de plásticos, 2026 deverá ser um ano de consolidação de tendências já em curso. A pressão para reduzir a pegada ambiental, aumentar a circularidade e responder a exigências regulatórias mais rigorosas mantém-se elevada. Neste contexto, a inovação em materiais, o ecodesign e a integração de dados ao longo do ciclo de vida do produto tornam-se fatores críticos de competitividade, sobretudo num ambiente marcado por custos energéticos e matérias-primas voláteis.

Indústria metalomecânica

A indústria metalomecânica enfrenta um cenário de procura seletiva e forte concorrência internacional. As análises da Crédito y Caución apontam para um contexto de investimento mais cauteloso e pressão sobre margens, agravado pela concorrência de mercados asiáticos e pela incerteza associada a tarifas e tensões geopolíticas. A modernização de processos, a automação e a digitalização assumem um papel central para compensar a escassez de mão de obra e reforçar a eficiência, enquanto a transição energética e os investimentos em infraestruturas criam oportunidades para empresas capazes de responder a requisitos técnicos exigentes e a critérios ESG cada vez mais presentes.

Envolvente do edifício e construção

No setor da construção e da envolvente do edifício, a sustentabilidade assume uma dimensão económica clara. A eficiência energética, a resiliência a riscos físicos e a conformidade com normas cada vez mais rigorosas influenciam diretamente decisões de investimento e financiamento. Materiais inovadores, soluções modulares e tecnologias digitais aplicadas ao projeto, execução e gestão de obra ganham relevância num mercado que procura reduzir custos de ciclo de vida e aumentar previsibilidade.

Energia, instalações e obras

Nos setores da energia, das instalações técnicas e das obras, 2026 será marcado pela continuidade do investimento em energias renováveis, redes e eficiência energética. A integração de soluções digitais, a gestão inteligente da procura e o armazenamento ganham importância num sistema energético cada vez mais descentralizado. Em simultâneo, os novos requisitos em matéria de cibersegurança e resiliência operacional, consagrados em enquadramentos como o Cyber Resilience Act, reforçam a ligação entre tecnologia digital e infraestruturas físicas.

Indústria alimentar

A indústria alimentar apresenta perspetivas relativamente favoráveis em 2026. Dados do INE indicam um crescimento nominal de 8,1% nas exportações de produtos alimentares e bebidas, refletindo a procura externa e a valorização de produtos transformados. Em paralelo, o setor enfrenta desafios significativos em termos de custos, segurança alimentar e rastreabilidade, tornando a digitalização da cadeia de abastecimento e a automação determinantes para responder a exigências regulatórias e às expectativas dos consumidores.

Indústria de produção agrícola

A agricultura enfrenta desafios específicos associados à pressão climática e à necessidade de produzir mais com menos recursos. A inovação, a eficiência no uso da água e da energia e a digitalização dos processos produtivos tornam-se centrais, num contexto em que são exigidos elevados padrões de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, alinhados com as tendências discutidas no âmbito do BCSD Portugal.

Decidir em contexto de incerteza

Mais do que um ano de rutura, 2026 afirma-se como um ano de decisões exigentes.

Como foi salientado no encontro do BCSD Portugal, sustentabilidade, tecnologia e inovação não são apenas temas para comunicar, mas prioridades que requerem execução coordenada entre empresas, governos e sociedade.

Num ambiente marcado por crescimento moderado, disrupção tecnológica e pressão regulatória, a vantagem competitiva dependerá da capacidade de interpretar sinais, integrar diferentes dimensões da estratégia e transformar incerteza em ação informada. Para a indústria, construir resiliência, flexibilidade e visão de longo prazo deixa de ser opcional e passa a ser condição de sobrevivência.

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