Paulo Castelão* – Future Energy Leaders Portugal (FELPT)
08/06/2026Os números mais recentes da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) são simultaneamente motivo de orgulho e de preocupação. Em março de 2026, Portugal atingiu 22.074 MW de capacidade instalada em energias renováveis, posicionando-se no quarto lugar da UE-27, com cerca de 65% de incorporação de fontes renováveis na produção elétrica.
É precisamente aqui, contudo, que reside o principal problema. Apesar de todo este dinamismo aparente, Portugal está a ficar dramaticamente atrasado face às metas definidas do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC 2030). Faltam 21.426 MW para alcançar os 43,5 GW necessários, o que não representa um mero ajuste, mas a duplicação da capacidade atual em apenas quatro anos. Serão necessários 5.350 MW instalados anualmente, sendo que o ritmo atual ronda os 1.500 MW, ou seja, um terço do objetivo.
Podemos valorizar a baixa intensidade carbónica do nosso sistema eletroprodutor e a própria ambição do PNEC, mas isso não invalida um desafio premente. Os instrumentos para atingir as metas estão dispersos, com pouca integração entre estratégias, regulação e financiamento. E, para quem investe, para quem forma profissionais e para quem decide instalar, essa dispersão acarreta os seus custos.
Esta aceleração não pode, porém, ficar confinada à produção de eletricidade renovável. O verdadeiro desafio de 2030 está na descarbonização do consumo final.
Ter mercado, tecnologia e competência técnica não é suficiente se não houver uma execução consistente ao longo do tempo. Cumprir as metas de 2030 exige estabilidade das regras, planeamento atempado da rede elétrica e uma boa articulação entre políticas públicas, operadores e investidores. O dinamismo que se sente no terreno precisa de um enquadramento previsível que permita transformar projetos em capacidade instalada e valor económico duradouro.
O setor está, simultaneamente, a transitar da instalação básica para a gestão inteligente de energia. Soluções integradas de armazenamento e mobilidade elétrica representam o novo status quo técnico, o que coloca a formação especializada no centro de qualquer estratégia de crescimento sustentado.
A janela crítica situa‑se entre 2026 e 2028, sendo que 2030 não pode ser a linha de meta, mas sim, apenas um marco intermédio numa maratona que continuará no pós‑2030. As decisões que tomarmos agora irão definir a trajetória da próxima década, em termos de competitividade, segurança de abastecimento e descarbonização. A capacidade técnica existe. O desafio é garantir que o enquadramento político e institucional acompanha essa ambição no futuro próximo.
* Paulo Castelão – FELPT
Licenciado em Engenharia do Ambiente e Mestre em Energia para a Sustentabilidade, com especialização em descarbonização e sustentabilidade industrial. Paulo Castelão é engenheiro na Direção Geral de Energia e Geologia, especializado no licenciamento para a mobilidade elétrica. Paulo é também Docente de Energia, Aspetos Legais e Regulamentação na Pós-Graduação em Energias Renováveis na Universidade Europeia. Doutorando em Sistemas Sustentáveis de Energia pela FEUP desde 2023 onde desenvolve trabalho nas áreas da descarbonização, comunidades de energia, virtual power plants, tecnologia blockchain e redes distribuídas.





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