Edifícios | Opinião
Cláudio Costa, Resp. Canal Prom. Imobiliários/Arquitetos Portugal da Schneider Electric
11/09/2026
A regulamentação europeia está a acelerar a melhoria do desempenho energético dos edifícios, nomeadamente através da Diretiva relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD, na sua sigla em inglês). Para os proprietários, esta evolução traduz-se em decisões sobre isolamento, climatização, carregamento de veículos elétricos ou atualização da infraestrutura elétrica.
O resultado depende, contudo, da forma como as novas cargas são integradas. Instalar uma bomba de calor, um carregador de veículo elétrico e painéis solares sem um sistema comum de gestão, pode aumentar a potência solicitada à rede em determinadas horas e limitar o aproveitamento da energia produzida localmente.
Um sistema de gestão de energia doméstica, habitualmente designado por HEMS, reúne informação sobre produção, armazenamento e consumo, coordenando o funcionamento das diferentes cargas. Soluções como o Wiser Home da Schneider Electric, permitem integrar diferentes equipamentos numa infraestrutura comum e coordenar o seu funcionamento.
Conhecer o consumo total indicado na fatura é diferente de compreender como a energia circula dentro de casa. Uma gestão mais detalhada permite perceber quanto consome a climatização, o carregamento do automóvel ou a produção de água quente, e identificar os períodos de maior procura.
O principal valor surge quando o sistema consegue agir sobre a informação recolhida. O carregamento do veículo elétrico pode ser transferido para períodos em que a eletricidade é mais barata, enquanto a energia fotovoltaica pode ser utilizada de forma prioritária na habitação ou armazenada para utilização posterior.
A automação permite definir prioridades e limites, tendo em conta as rotinas da família, o conforto e a disponibilidade de energia. A inteligência torna-se mais útil quando funciona em segundo plano e simplifica uma realidade energética que é cada vez mais complexa.
Com tarifários diferenciados por período ou indexados ao mercado, o preço da eletricidade pode variar ao longo do dia. Uma casa capaz de deslocar consumos flexíveis pode aproveitar os períodos de maior disponibilidade de energia e preços mais baixos.
Nem todas as cargas podem ser adiadas, mas o carregamento de um automóvel, o aquecimento de água, determinados ciclos da bomba de calor ou uma bateria oferecem margem de gestão.
Esta flexibilidade pode ainda contribuir para aliviar a rede durante períodos de maior procura. Nos mercados em que existam programas de resposta da procura, as habitações preparadas para adaptar temporariamente o consumo poderão receber incentivos pela flexibilidade disponibilizada.
Nesta nova arquitetura, o quadro elétrico assume uma função que vai além da proteção e distribuição tradicionais. Equipado com medição, conectividade e controlo, pode fornecer uma visão em tempo real dos fluxos energéticos e ajudar a coordenar cargas, produção fotovoltaica e armazenamento.
A inteligência artificial poderá aprofundar esta capacidade, permitindo reconhecer padrões, antecipar necessidades e ajustar estratégias à ocupação, à produção local e aos preços da energia.
As tecnologias de carregamento bidirecional, como o Vehicle-to-Home (V2H) e o Vehicle-to-Grid (V2G), acrescentam novas possibilidades à gestão energética doméstica. Quando o veículo, o carregador e o mercado o permitirem, a bateria do automóvel poderá fornecer energia à habitação ou à rede, tornando-se um recurso adicional de armazenamento e flexibilidade.
As casas construídas ou renovadas atualmente vão operar num sistema energético mais eletrificado, distribuído e variável. Por isso, as escolhas feitas durante uma obra, desde o dimensionamento do quadro e da instalação elétrica até à compatibilidade entre bomba de calor, carregador, produção solar e bateria, condicionam a possibilidade de integrar uma gestão inteligente no futuro.
Nem todas as habitações terão de instalar todos estes equipamentos de uma só vez. Uma abordagem progressiva pode começar pela medição e pela preparação da infraestrutura, evoluindo depois à medida das necessidades e do investimento disponível.
A casa de 2030 será verdadeiramente inteligente quando conseguir gerir a sua complexidade sem a transferir para quem nela vive. Mais do que acumular dispositivos, trata-se de criar uma casa capaz de tomar decisões energéticas coerentes, aproveitar melhor os recursos disponíveis e de se adaptar a um sistema elétrico em transformação.
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